Hiroshima, a cidade da paz

Hiroshima, a cidade da paz


Por M.Margarida Pereira-Müller

AA Nº244/1967

U ma data histórica: 6 de Agosto. Até hoje, a cidade de Hiroshima é imediatamente associada aos efeitos da radioactividade causada pela explosão nuclear do rebentamento da bomba atirada pelos Estados Unidos da América a 6 de Agosto de 1945. Entretanto, passados mais de 60 anos após a tragédia que marcou a história da cidade e do mundo, Hiroshima não deixa transparecer nenhuma lembrança daquele dia, excepto o Parque Memorial da Paz. Hiroshima é uma cidade moderna, com árvores, prédios, pessoas circulando e carros, como em qualquer cidade desenvolvida. Mas as lembranças deixadas ficarão para sempre na História. A Segunda Guerra Mundial estava prestes a terminar. A Alemanha já se tinha rendido. Os Japoneses mantinham a luta. Para obrigar o imperador do Japão a render-se e assim a terminar a guerra, os Estados Unidos da América utilizaram pela primeira vez o "último grito" da tecnologia bélica: a bomba atómica, denominada ironicamente de "Little Boy", da qual nem eles sabiam as suas terríveis consequências. Porquê Hiroshima? Muitas são as razões que levaram à escolha desta cidade, entre elas, o facto de Hiroshima nunca ter sido atacada durante a Guerra, garantiria a segurança da tripulação do avião. Ao cair, a bomba causou a morte de mais de 256 300 pessoas, praticamente todas (cerca de 90%) civis. Destruiu tudo num raio até 2 km de distância, devastando toda a vegetação. Áreas mais distantes também foram afectadas pela chuva que caiu depois - uma chuva com grande quantidade de radioactividade -, contaminado rios, quintas, lagos e pessoas. Era impossível tratar dos sobreviventes imediatamente, pois todas as infra-estruturas tinham ficado destruídas. Após alguns dias, os sobreviventes começaram a ser atendidos e levados para hospitais de outras províncias. Muitos, por falta de medicação adequada, acabaram morrendo lentamente e de forma agonizante. A reconstrução Aos poucos, a cidade (e o país) foi-se reconstruindo. Mas era importante que esta devastação inútil não ficasse esquecida da Humanidade para que nunca mais se repetisse. O sofrimento foi horrível, mas era preciso que não tivesse sido em vão. Símbolo da destruição e do mal que o Homem, voluntária e conscientemente, pode infligir ao Homem é a ruína do Pavilhão Industrial, que derreteu completamente, excepto a fachada, com o calor da bomba que rebentou 400 metros acima. O Memorial da Paz de Hiroshima, chamado Cúpula Genbaku ou Cúpula da Bomba Atómica foi originalmente projectado pelo arquitecto japonês Kenzo Tange. Foi terminado em Abril de 1915, e intitulado Exposição Comercial da Câmara de Hiroshima e inaugurado oficialmente em Agosto desse ano. O hipocentro da explosão atómica de 6 de Agosto de 1945 situou-se apenas a 150 metros de distância do edifício. O edifício foi imediatamente preservado exactamente como se encontrava após o bombardeamento, e serve hoje como uma memória da devastação nuclear e um símbolo de esperança na paz mundial e eliminação de todas as armas nucleares. Ao lado, na pequena ilha entre os dois canais do rio Ota (Ota-gawa), a começar na famosa Ponte em T, o alvo dos americanos para lançar a bomba, nasceu o Parque Memorial da Paz, onde placas, fotografias, textos, imagens nos fazem recordar os horrores da bomba atómica - "O horror não pode ser repetido", como está inscrito no cenotáfio. A Chama da Paz permanecerá acesa até que a ameaça de aniquilação nuclear deixe o planeta Terra. Ali perto, está o Sino da Paz, que qualquer um pode tocar em honra da paz mundial. No Parque Memorial da Paz podemos ainda ver diversos outros monumentos, todos eles apelando à paz mundial, como a Estátua das Crianças da Bomba Atómica, em memória das crianças que morreram vítimas da bomba, o Monte Memorial da Bomba Atómica, com as cinzas de 70 mil vítimas não identificadas, Sala Nacional Memorial da Paz de Hiroshima, que inclui a Sala da Lembrança com uma reconstituição a 360º de Hiroshima após a bomba, formada por 140 mil ladrilhos (o número de vítimas até final de 1945), Museu Memorial da Paz de Hiroshima e as Portas da Paz, cinco portas de cinco metros de altura com a palavra "paz" escritas em diversas línguas. A visita a este parque exige tempo, pois não pode ser visto a correr. As imagens são muito fortes e há que parar muitas vezes, tentando encontrar a resposta aos inúmeros Porquês que nos surgem. Saímos do parque com a firme intenção de lutar pela paz e pela extinção das armas nucleares. O castelo Mas mais há para ver na cidade. O castelo de Hiroshima foi construído originalmente em 1592, mas foi totalmente destruído em 1945 pela bomba atómica. Foi reconstruído em 1958 como uma reprodução perfeita do original. Serviu como residência da família Asano por mais de 250 anos até à Restauração Meiji em 1868. O interior da torre de cinco andares é usado como um museu, que mostra a história e o sistema feudal da cidade. No fosso protector que circunda o castelo abundam carpas; daí ser também conhecido Castelo de Carpa. É muito belo e relaxante o jardim do castelo, que é um belo exemplo dum jardim japonês clássico; torna-se ainda mais belo na Primavera quando as 350 cerejeiras estão em flor. Do cimo do castelo, tem-se uma linda vista sobre o porto de Hiroshima e sobre a Ilha de Miyajima na Baía de Hiroshima, bem como sobre toda a cidade. Miyajima Para descansar um pouco a alma após tantos horrores, vá até à Miyajima (tradução literal, "ilha do santuário"), a ilha em frente de Hiroshima, considerada sagrada e onde antigamente era proibido nascer ou morrer. A ilha de Itsukushima é uma das muitas ilhas do Mar Interior e é onde se localiza o monte mais elevado da região, o Monte Misen (530m). Devido ao costume xintoísta de adoração de montanhas, o local foi considerado sagrado. A ilha é famosa pelo seu torii, porta flutuante de entrada de templo, o Santuário Itsukushima; o torii encarnado, de madeira, fica sobre o oceano durante a maré-cheia, dando a sensação óptica de estar a flutuar. O Santuário de Itsukushima é um santuá rio xintoísta, construído sobre a água. Foi considerado Património Mundial pela UNESCO em 1996. Terá sido fundado em 593 d.C., mas só há referências escritas à sua existência a partir de 811 d.C. Em 1168, Saeki Kagehiro, um sacerdote xintoísta, terá reconstruído e ampliado os edifícios, para a sua configuração actual. Acredita-se que esta reconstrução terá sido financiada por Taira no Kiyomori, um dos chefes de clã mais poderosos do Período Heian, que atribuía os seus êxitos políticos e militares à influência dos kami (os espíritos) de Itsukushima. Os edifícios principais do santuário foram destruídos por um incêndio em 1207. Foram reconstruídos oito anos depois, apenas para sofrerem nova destruição pelo fogo em 1223. Foram novamente reconstruídos em 1241. Uma vez que o Santuário ltsukushima-jinja se encontra construído sobre o mar sofreu danos frequentes ao longo dos tempos, especialmente o grande torii. Também foram acrescentados novos edifícios: o Gojûnotô (o pagode de cinco andares) em 1407, o Tahôtô (o pagode de dois andares) em 1523 e vários Honden (edifícios com altares a kami específicos). À frente do torii está o Hirabutai (plataforma cerimonial), onde têm lugar as danças cerimoniais (Kagura). Do Hirabutai saem dois corredores cobertos para Leste e para Oeste, que se ligam aos edifícios secundários do templo. Existe ainda um segundo conjunto de santuários chamado o Sessha Marodojinja. Um pormenor engraçado da ilha é a sua população de veados, domesticados que se aproximam das pessoas para que estas lhe façam festinhas ou lhes dêem de comer.