NELSON MANDELA GRANDE HOMEM DOS NOSSO TEMPO

NELSON MANDELA GRANDE HOMEM DOS NOSSO TEMPO


Por Maria Noémia de Melo Leitão

AA Nº. 245/1931

Ao longo dos milénios que a História leva de contados, surgem figuras que a memória colectiva dos homens vai retendo.

E, através do sopro do tempo, esses nomes vão passando, galgam gerações e não se sabe quando tem fim este percurso autonómico.

Homens ou mulheres deixaram, na História, o rasto da sua incrível e inapelável perversidade, do seu cinismo, da sua hipocrisia - quem sabe, se da sua doença mental? - e que os/as levou a tornarem-se conhecidos e citados por más razões.

Outros e outras houve cuja passagem pela vida é invocada em citações de ostensiva cultura ou em apelos de exemplar e sublime mensagem.

São seres humanos fiéis a um ideal que se propuseram seguir e defender, sem se afastarem, sob qualquer pretexto, da linha traçada que os conduzia à integração plena da sua consciência.

São seres humanos que sempre consideraram o seu semelhante como parte integrante do mundo em que eles próprios se moviam e, como tal, detentor de todos os direitos.

Nem eles próprios se sentiam capazes de viver, na indiferença. Lutar em defesa dos que não tinham voz ou apenas podiam lançar um gemido quase inaudível, fez desses lutadores - homens ou mulheres - gigantes no meio de uma sociedade de que teimava em fechar os olhos a uma realidade cruel e mesquinha.

Lutaram, intrepidamente, por um ideal de paz, concórdia e fraternidade.

Até ao fim, os valores mais altos da dignificação do homem foram defendidos.

Os conceitos de paz, concórdia e fraternidade não eram meras notas essenciais, não eram abstracções estéreis, foram, sim, valores dignificadores desses homens e mulheres que se imolaram na defesa e ideais nunca traídos.

Três grandes pacifistas, concordes e fraternos enriqueceram o século XX. Repudiaram a luta que opunha, violentamente homens contra homens; que encharcava de sangue, transformado em ódio, a face do irmão discordante.

Pregaram a palavra do amor, não o amor rendido às paixões, mas o amor que glorifica o ser amado, que o respeita e defende. O seu ideal não foi imaculado pelo ódio, não violentou, não submeteu a força da razão à força da violência.

Foram três homens impolutos, magníficos, surpreendentes, imortalizados pelo vigor da palavra e pela coerência dos seus actos.

Robustos e imparáveis na fé das suas convicções, encontraram ânimo e valor para enfrentar o inimigo, sujeitando-o à humilhação de, sendo poderoso pelas armas, era frágil ao desprezar o que o homem tem de superior: a dignidade.

Pregadores da paz, os dois primeiros morreram às mãos de quem encontrou na violência a resposta para a ousadia dos que queriam mudar o rumo de uma sociedade adormecida.

Felizmente, está vivo e ainda vigoroso no seu pensamento, Nelson Mandela, mártir da Àfrica do Sul.

Mandela nasceu no dia 18 de Julho de 1918, numa pequena vila de Mvezo, no Transkei, bastante distante da cidade do Cabo. Oriundo de uma família com pergaminhos, teve uma infância responsabilizada pelas tradições do povo schosa, mas sem usufruir de benefícios económicos.

A África do Sul fazia, então, parte do Império Britânico e todos os sul-africanos tinham de se sujeitar às leis emanadas do colonizador - era o Apartheid, contra o qual o ANC lutou 75 anos.

Na sua autobiografia, a que deu o sugestivo título de "Longo Caminho para a Liberdade", Mandela diz não saber, com exactidão " o momento em que me tornei político" para logo acrescentar " ser africano na África do Sul significa que se é politizado desde a nascença".

A seguir justifica esta sua asserção com o apartheid, visto que, como diz, há emprego só para africanos, casas só para africanos, andar de comboio só para africanos, (escolas quando as há) só para africanos, hospitais só para africanos, e por aí adiante.

Nos anos quarenta, os princípios da Carta Atlântica de Roosevelt e Churchill animaram os sul-africanos, pensando que - porque a Carta defendia princípios democráticos - melhorariam a sua situação discriminatória.

Tal não sucedeu, o que levou os elementos basilares do ANC (Congresso Nacional Africano) a reclamarem os seus direitos.

Em vão, o fizeram.

Entretanto, alguns movimentos reivindicativos pertencendo a sectores de trabalho da África do Sul (reprimidos com grande brutalidade), despertaram as consciências dos que se sentiam responsáveis pela defesa dos direitos cívicos dos negros, e Nelson Mandela aparece, activamente, neste cenário.

Entrou em várias campanhas anti-aparthheid, foi perseguido, preso, condenado, tendo o juiz posto em evidência que esses movimentos não usaram a violência.

Não mais parou a actividade política de Mandela, que conciliou com o estudo, frequentando o curso de Direito, o que lhe permitiu ser, em julgamentos a que se submeteu, o defensor da sua própria causa.

Mandela continuava a sofrer perseguições de vária ordem, mas a tudo foi resistindo com a força anímica que sempre o acompanhou.

Em 1961, o seu nome aparece (juntamente com outros companheiros) num plano de actos de sabotagem a efectuar em locais mais vulneráveis à economia da África do Sul.

Sujeitos a julgamento, são todos condenados a prisão perpétua, pensando-se que teriam sido poupados à pena capital, porque o nome de Mandela ressoava em países da Europa e de outros continentes, onde eram defendidos os direitos humanos.

Seguiram-se vinte e sete anos de privação da liberdade, numa prisão de alta segurança, em que estes prisioneiros foram sujeitos a trabalhos forçados e bem esforçados, pela dureza imposta à execução das tarefas. Reclamando, sempre, a condição de presos políticos, em 1977 cessaram os trabalhos manuais, podendo, a partir desta data, dedicar-se à leitura de jornais e livros da biblioteca e tarefas leves.

Mandela aproveita a oportunidade para iniciar as suas memórias.

Um tanto inesperadamente, Mandela começava a ser procurado, na prisão, por políticos que pretendiam saber o que podia ser feito, para um entendimento entre os opositores ao regime e os defensores do apartheid.

Em 1988 é atingido por uma pleurisia grave que o obrigou a um internamento hospitalar, na cidade do Cabo.

Finalmente, mais ou menos concordante com a política do Presidente Klerk, este concede-lhe a liberdade, em 1990.

Foi com alegria e regozijo que, não só a África do Sul, mas o mundo defensor da liberdade acolheram a ordem da sua libertação.

Os setenta e dois anos não o impediram de continuar a lutar pelo bem do seu povo e, finalmente, o apartheid deixou de ser praticado.

Juntamente com o Presidente Klerk é agraciado, em 1993 com o Prémio Nobel da Paz.

Merecidamente atinge em 1994 o topo da sua carreira política, sendo eleito Presidente da República, cargo que ocupou até 1999, fim do seu mandato.

Não deixou de lutar, por problemas de ordem social e de saúde, relacionados com o HIV.

Celebrou em 18 de Julho passado, noventa anos, juntamente com a sua mulher - Graça Machel, boa companheira, inteligente e receptiva às ambições do marido em prol do bem da humanidade.

Foram inúmeras as manifestações internacionais de que se viu rodeado pela passagem do seu aniversário, revestindo formas diversas a exaltação da personalidade de Mandela, um dos maiores lideres políticos do seu tempo.

Deslocou-se a Inglaterra; foi recebido pela Rainha e, na Praça de Trafalgar, uma multidão anónima vitoriou-o, de braços no ar, proferindo slogans com entusiasmo. A Inglaterra sua opositora recebeu-o de braços abertos.

Que admirar em Nelson Mandela?

A sua persistência, coerência, calma e afabilidade.

Homem de personalidade fortíssima, nunca se sentiu intimidado, nem desalentado, mesmo tendo de enfrentar a prisão, em condições tenebrosas.

As suas memórias não deixam transparecer o sentimento de ódio, nem de vingança.

Tudo aceitou - e foi muito o que o fez sofrer - com a força de quem dignifica os ditames da sua consciência e, como ele diz, sempre com a esperança de que não seria em vão a sua luta.

E, agora, no repouso da sua casa, rodeado da sua numerosa família, olhando o passado, em que a esperança lhe deu ânimo encontrará a certeza de um futuro promissor para os homens que sempre amou.