Isabel de Aragão, Rainha Santa: da História ao Mito


Por M. Lourdes Cidraes

A.A. No. XXX/19XX

Foi com grande prazer que recebi o convite da Direcção da Associação das Antigas Alunas do Instituto de Odivelas para estar presente neste dia em que celebra o seu 85º aniversário. E é-me particularmente grato poder recordar convosco a Rainha Santa Isabel, que diversas vezes veio ao mosteiro que D. Dinis mandou erigir no lugar onde hoje se situa este colégio. Aqui esteve acompanhando o corpo do marido que deixara expresso o desejo de ser sepultado no seu mosteiro de Odivelas. Aqui ficou o corpo do fundador, no grande túmulo por ele mandado construir e que se encontra actualmente numa das capelas absidiais da igreja gótica primitiva.

No tempo em que eu própria fui aluna desta casa, a grande arca tumular ocupava o centro da Igreja. O meu primeiro encontro com D. Dinis deu-se aí, quando tinha 10 anos. E passou a ser um encontro diário, ao longo de todos os anos que aqui estudei. Repetia-se de manhã e à noite, quando entrava na igreja em formatura, para as orações quotidianas, ao lado da minha colega Ivone Sucena que depois veio a ser professora do colégio.

Recordo, como se fosse ontem, o cuidado com que passava junto das cabeças das figuras que suportam o túmulo. Recordo também que a minha mãe, que também foi aluna do colégio, me contava que no seu tempo ainda se conservavam as paredes da "casa de D. Dinis", no Claustro da Moura. E que um dia um enorme estrondo sobressaltou tudo e todos. Acabavam de ruir os restos do antigo paço. Felizmente ficaram fotografias, que se podem hoje observar no pequeno museu instalado na Sala do Capítulo, que abre para o Claustro Principal.

Mas o meu encontro definitivo com D. Dinis, e deste resultou uma paixão imediata que não iria esmorecer com o tempo, foi mais tarde, nas aulas de português com a Srª. D. Carlota Saraiva, quando li, pela primeira vez, a cantiga de amigo "Ai flores, ai flores do verde pino…"

Mais fortuito e inesperado foi o primeiro encontro com a rainha D. Isabel. Deu-se precisamente na Sala do Capítulo que nessa época era armazém de materiais vários, entre eles diversos azulejos que vieram a ser colocados ou que estão hoje expostos no museu. Aí, não sei bem em que ano e em que circunstâncias, foi-me dado ver uma tela enrolada. Aberta, mostrava, sobre um fundo muito escurecido, o rosto mais claro de uma rainha. Era a Rainha D. Isabel, vestida com traje de corte, a cabeça coroada, as duas mãos segurando no regaço um braçado de rosas. No canto superior direito um anjo sustentava o escudo partido de Portugal e de Aragão. Restaurada a tela, foi pendurada no átrio principal do colégio, onde ainda se encontra, então como hoje, sobre uma grande arca que um jarrão de flores ornamenta. É um lindíssimo óleo seiscentista, de autor anónimo. É também uma das mais antigas representações do milagre das rosas na pintura portuguesa.

O meu encontro definitivo com a rainha D. Isabel deu-se, contudo, muitos anos mais tarde, agora no âmbito de uma investigação, prosseguida ao longo de vários anos, sobre o imaginário cultural português e os processos de transformação da memória histórica em memória mítica. E Isabel de Aragão, a Rainha Santa, é indiscutivelmente uma das mais notáveis figuras femininas da nossa história e também um mito popular e religioso que alcançou, desde cedo, uma invulgar projecção a nível nacional.

É esta figura dupla, histórica e lendária, que me proponho evocar convosco, nesta lindíssima sala, o antigo refeitório das freiras do mosteiro. E se me é permitida nova digressão pessoal, farei uma última confidência: ao olhar esta sala revejo os dias em que juntamente com outras colegas para aqui viemos pintar os enormes cenários da nossa festa de finalistas, que representavam o Claustro da Moura, onde se iria passar a acção do nosso auto, "O Diálogo das Fontes".

Depois destas várias considerações iniciais, que tiveram a paciência de escutar, voltemos agora a nossa atenção para a figura de Isabel de Aragão.

Que sabemos nós desta rainha? Ao contrário do que se verifica com outras figuras históricas femininas, são muitas, e fidedignas, as informações que chegaram aos nossos dias. E temos também a sorte de poder conhecer o seu rosto, que ficou fixado para sempre na estátua jacente do túmulo primitivo, uma das mais importantes obras da arte tumular medieval portuguesa. Nele a rainha está representada com o hábito de clarista e com o bordão e a sarcela de peregrina com que quis ser enterrada. Na cabeça conserva a coroa de rainha. Dois anjos contemplam-na. Aos lados e aos pés acompanham-na três pequenos cães, símbolos da fidelidade. Rodeiam-na oito escudos de Aragão e de Portugal(1). Mesmo na morte não deixou de ser rainha de Portugal e princesa de Aragão. No rosto, grave e sério, os olhos denotam o ligeiro estrabismo referido pelos cronistas. Este pormenor garante a fidelidade do retrato.

O túmulo, provavelmente da autoria do aragonês mestre Pero, foi mandado construir por D. Isabel e colocado, conforme o seu desejo, no meio da igreja de Santa Clara-a-Velha que, afirma o cronista Acenheiro, a rainha mandara fazer para sua sepultura. A subida das águas do Mondego e o assoreamento das suas margens obrigou à mudança da arca tumular para o novo mosteiro, hoje conhecido por Santa Clara-a-Nova, entregue às freiras claristas no séc. XVII. A arca, agora vazia, conserva-se no coro baixo da igreja. O corpo incorrupto está guardado no túmulo seiscentista, de cristal e prata, colocado no altar-mor.

Para além do primitivo túmulo, que é um importante documento iconográfico, existem diversas fontes escritas coevas. Entre elas destacam-se vários documentos mandados escrever pela rainha, como os dois testamentos, a declaração por ela feita ao tomar o hábito de Santa Clara, o protesto contra a legitimação dos sobrinhos e um numeroso conjunto de cartas pessoais, na sua maioria enviadas a seu irmão, o rei D. Jaime de Aragão, descobertas e publicadas só em meados do séc. XX.

Um texto fundamental para o conhecimento da vida de Isabel de Aragão é uma biografia anónima, escrita logo após a sua morte, por alguém que de perto com ela privou, talvez Fr. Salvado Martins, bispo de Lamego, que foi seu confessor, ou uma das donas de Santa Clara que a acompanharam durante o tempo de viuvez no paço mandado construir junto ao Mosteiro. É vulgarmente conhecida por Lenda ou Relação. O original perdeu-se. No Museu Machado de Castro, depositário de várias peças do tesouro da rainha, conserva-se uma cópia quinhentista, manuscrita e iluminada, que tem o título: Livro que fala da boa vida que fez a Rainha de Portugal, Dona Isabel, e seus bons feitos e milagres em sua vida, e depois da morte.

Esta primeira biografia, de natureza hagiográfica (que Frei Francisco Brandão publicará no séc. XVII, na 6ª parte da Monarquia Lusitana)(2), serviu de base a todo o discurso biográfico e cronístico posterior, incluindo a Crónica de 1419 e as Crónicas de D. Dinis e de D. Afonso IV, de Rui de Pina. Nela é narrada a infância da princesa em Aragão, as negociações para o seu casamento, a vinda para Portugal, os tempos de casada e de viuvez e finalmente a sua morte em Estremoz, a transladação para Coimbra e as exéquias em Santa Clara-a-Velha. A partir dela podemos reconstituir os principais passos da vida da mulher de D. Dinis.

No Inverno de 1269/1270 nasceu na corte de Aragão uma princesinha, neta do poderoso rei Jaime I, o Conquistador, senhor de Aragão e da Catalunha, de Maiorca, de Montpellier e do condado do Russilhão. A pequena princesa era filha do infante D. Pedro, que iria subir ao trono como Pedro III, o Grande, e de D. Constança, filha de Manfredo da Sicília e neta do Imperador Frederico II da Alemanha. Pelos seus pais a infanta descendia de várias casas reais da Europa. E porque D. Pedro tinha uma tia, que Roma reconhecera como santa - Santa Isabel da Hungria(3) - recebeu a princesa o nome de Isabel: Isabel de Aragão. Muito jovem ainda seria rainha de Portugal.

A primeira infância passou-a com o seu avô, o rei D. Jaime, que a escolhera entre todos os outros netos. Era para ele "a melhor dona que sairia da casa de Aragão". Desde pequena a princesa parecia fadada para misteriosos destinos: nascera totalmente envolta por uma película, que sua mãe guardara numa caixa de prata que conservava nas suas arcas. Quando Isabel tinha cerca de 11 anos, reinava já seu pai, foi por ele acordado o casamento com o jovem rei de Portugal. As negociações foram longas. D. Dinis foi escolhido entre vários pretendentes. Custava a D. Pedro separar-se daquela filha. Assim pelo menos ela "sairia de sua casa como rainha".

O casamento realizou-se por procuração em Barcelona a 11 de Fevereiro de 1282. A noiva levava para Portugal um dote importante: "muitos ricos dons e grande baixela de prata". O noivo doava-lhe várias vilas e castelos em arras.

No dia da partida D. Pedro acompanhou a filha até à fronteira da Catalunha. E ao deixá-la abraçava-a chorando, por ver partir "a cousa do mundo a que melhor queria e mais amava". As terras de Castela foram atravessadas sob a protecção do Infante D. Jaime, primo de D. Isabel. Acompanhada das arcas com o seu enxoval, dos seus confessores, das suas camareiras e dos seus criados, Isabel de Aragão entrou em Portugal por Bragança, onde foi recebida pelo infante D. Afonso, irmão de D. Dinis.

Os noivos só se encontraram em Trancoso, onde se realizaram os esponsais na igreja de S. Bartolomeu. Do que disseram e pensaram nesse primeiro encontro nada sabemos. Sabemos apenas que D. Dinis ofereceu à mulher a vila onde a vira pela primeira vez.

No final do Verão, o casal real fixou-se em Coimbra, no palácio da Alcáçova. Só muito mais tarde, depois da morte de D. Dinis, a rainha foi morar no paço que fizera construir junto ao seu mosteiro de Santa Clara.

Do casamento nasceram dois filhos, D. Afonso, futuro rei de Portugal, e D. Constança, que casaria com o rei de Castela, para onde partira ainda criança. Durante a sua vida D. Isabel acompanhou o marido em frequentes deslocações ou diversas acções diplomáticas para estabelecer alianças e casamentos ou dirimir conflitos entre os outros reinos peninsulares, como aquele que opôs o rei de Aragão e o rei de Castela e em que o rei de Portugal foi por todos aceite como juiz.

Muitas e importantes foram as suas obras sociais e o apoio a conventos e congregações religiosas, mantidos com as rendas que lhe foram concedidas por D. Dinis. A generosidade do rei parece comprovar, não só a virtude cavaleiresca da liberalidade, mas também o respeito e afeição que teria pela mulher, apesar das numerosas infidelidades, que a rainha sofria sem se queixar, e do desentendimento que levou ao desterro de D. Isabel, suspeita de dar apoio ao filho, o infante D. Afonso, que se revoltara contra o pai. Desse desterro enviou D. Isabel a seu irmão, D. Jaime de Aragão, uma carta repassada de amargura.

A reconciliação deu-se em breve. A partir de então a rainha intervirá mais de uma vez tentando conciliar o marido e o filho desavindos. Desta sua intervenção pacificadora ficou célebre o episódio da mulinha: sozinha, D. Isabel atravessou os campos de Alvalade (ou de Lumiar ou de Loures) onde já se defrontavam os dois exércitos inimigos.

Quando D. Dinis adoece em Santarém a rainha acompanha-o, tratando-o por suas mãos. No próprio dia da morte do marido, em sinal de dor e de luto, veste o hábito de clarissa, que passaria a usar.

A seguir às exéquias, realizadas aqui bem perto, na igreja do antigo mosteiro, a rainha viúva partiu em peregrinação a Santiago de Compostela. Da sua visita ao santuário do apóstolo ficou a memória da magnificência dos presentes que levou. Do arcebispo recebeu um bordão de peregrina, com uma ágata incrustada (de que ainda se conserva parte em Santa Clara-a-Nova). Alguns biógrafos relatam uma segunda peregrinação que a rainha teria feito a pé. No entanto não consta da primeira biografia nem de outros documentos coevos, não tendo fundamento histórico.

Retirada no paço que fizera construir junto ao mosteiro de Santa Clara, D. Isabel dedicou o resto dos seus dias às suas obras de caridade e de piedade, à conclusão do mosteiro, e à administração dos seus senhorios.

Morreu em Estremoz, com cerca de 66 anos, no dia 4 de Julho de 1336, de uma doença súbita surgida no momento em que se dirigia para a fronteira em missão de pacificação entre o filho, D. Afonso IV, e o neto, Afonso XI de Castela. Contra o parecer de todos, D. Afonso quis cumprir a vontade de sua mãe de ser sepultada no mosteiro de Santa Clara. A longa transladação fez-se sob o sol ardente de Julho e, para espanto de todos, apesar dos grandes calores que se faziam sentir, o ataúde exalava um perfume tão suave que "tão nobre odor nunca ninguém tinha visto", assim se lê na primeira biografia.

Este texto, de natureza hagiográfica, procura demonstrar a santidade de D. Isabel de acordo com o paradigma das santas rainhas que se santificaram pelas virtudes da piedade, da caridade e da humildade. O autor anónimo recorda assim inúmeros actos de devoção e piedade cristã (jejuns, abstinências, vigílias e dádivas frequentes a mosteiros e igrejas) e exalta particularmente as virtudes da caridade e da misericórdia.

E escreve:

… e por qualquer lugar onde fosse não aparecia pobre que dela não recebesse esmola (…) E em cada quaresma fazia grandes esmolas a homens e a mulheres envergonhados; e no dia que se diz Ceia do Senhor lavava a certas mulheres pobres e leprosas os pés, e lhos beijava, e vestia-as e dava-lhes de calçar e contas por amor de Deus.

Desta primeira biografia podem também inferir-se uma invulgar cultura - D. Isabel "lia muito bem em latim e em linguagem" -, conhecimentos médicos e também excepcionais capacidades administrativas e habilidade política, que os dois testamentos, as cartas pessoais e outras fontes coevas testemunham. A sua intensa actividade diplomática e a sua intervenção pacificadora nos sucessivos conflitos abertos nas casas reais peninsulares, bem como a sua preocupação com a administração e jurisdição dos seus senhorios, puderam ser melhor conhecidas com a publicação do numeroso conjunto de cartas pessoais. Diversos documentos confirmam, igualmente, uma impressionante obra social. Fundou, entre outros, o Hospital dos Meninos Inocentes de Santarém, o Hospital de Leiria, o Hospício dos Pobres junto dos paços de Santa Clara e o Hospital de Velhas Inválidas em Coimbra. Criou várias albergarias como as de Estremoz, Alenquer e Odivelas. Fundou ainda as Gafarias de Óbidos e de Leiria e o Recolhimento para Regeneração das Desgraçadas de Coimbra. Todos foram recordados nos seus testamentos.

As primeiras manifestações da devoção e do culto da Rainha Santa Isabel iniciaram-se logo após a sua morte. A longa jornada do Alentejo até Coimbra, que durou sete dias e sete noites, a que acorreu gente de todo o lado e em que começaram a circular rumores de prodígios e milagres, vai constituir o primeiro momento na formação do culto religioso e também do mito isabelino que dele deriva. Seguir-se-ão as exéquias no convento de Santa Clara em que o entusiasmo do povo foi tal que se receou pela segurança do ataúde. Desses dias datam as primeiras narrativas de curas milagrosas que irão fazer parte dos autos de canonização. Aí se inicia a devoção popular e religiosa da "Rainha Santa".

Iniciado em Coimbra como culto privado no convento de Santa-Clara, o culto da Rainha Santa vai rapidamente alcançar as proporções de culto público, reconhecido pelo Papa Leão X no reinado de D. Manuel, embora ficando restrito à diocese de Coimbra. Contudo, e apesar da insistente pressão diplomática dos reis de Portugal, só no tempo de Filipe IV de Espanha o papa Urbano VIII procederá, finalmente, à canonização da rainha. A 25 de Maio de 1625, depois de um longo período de preparação dos autos que terminou com a abertura do túmulo e a visita do corpo pelos juízes nomeados por Roma, Isabel de Aragão passou a integrar o cortejo dos santos da liturgia católica e o seu culto alargou-se a toda a Cristandade. Foi grandiosa a cerimónia da canonização, para o que contribuiu largamente a liberalidade do delegado português. Para ela foi construído em materiais efémeros, mas em tudo semelhante àquele que hoje se contempla na basílica de S. Pedro, o célebre baldaquino de Bernini, o grande arquitecto do barroco italiano.

Na península ibérica, de Madrid a Lisboa, sucederam-se os festejos. Entre todos destacaram-se, pelo seu extraordinário esplendor, as festas de Coimbra. Delas ficou-nos uma interessantíssima descrição na biografia escrita por D. Fernando Correia de Lacerda, bispo do Porto. Segundo o autor, logo que a notícia chegou a Coimbra foi tão grande a alegria que as freiras de Santa-Clara, não levadas por leviandade mas pelo mais puro júbilo, subiram para os telhados do mosteiro para ouvir o repicar geral dos sinos, que de todos os campanários subiam parecendo um coro celestial. As festas prolongaram-se por vários dias. De manhã realizavam-se as cerimónias religiosas, sermões e corais. De tarde, no grandioso recinto construído junto ao Mondego, sucediam-se justas de cavaleiros, jogos de canas, lides de touros e representações várias. No domingo saiu a procissão, que era tão longa que demorou horas a percorrer a cidade. Nela se representava o salmo de David em que todas as criaturas glorificam o Criador. Desfilaram alegorias do sol, da lua, das estrelas, dos animais e dos diversos fenómenos da natureza, como o vento, a chuva ou a brisa, mas também de santos e profetas, de reis e de príncipes e das grandes virtudes cristãs. Um último carro triunfal mostrava a Rainha Santa em glória, ladeada pela Fé e pela Caridade. A partir de então Coimbra, que conserva o corpo de Santa Isabel, permanece como o centro do culto religioso e popular que ainda hoje tem a sua principal manifestação nas Festas da Rainha Santa, que nessa cidade se celebram de dois em dois anos, no aniversário da sua morte.

A par do culto religioso e popular existe um importante conjunto de lendas que reflectem a implantação popular do mito isabelino. É diversificada a tradição lendária da Rainha Santa, composta por narrativas de acontecimentos extraordinários e prodigiosos ou de milagres filtrados pelo imaginário popular, embora muitas vezes com origem no discurso biografista e cronístico. A lenda do "milagre das rosas", introduzida tardiamente por influência da lenda similar da Rainha Santa Isabel da Hungria, vai tornar-se o elemento nuclear do discurso mítico isabelino, constituindo o elo que une o culto religioso, oficial e canónico, e uma tradição popular, povoada de lendas e prodígios, mas onde ficou, definitivamente gravada, a imagem da rainha abrindo o regaço onde o ouro em rosas se fizera.

É difícil determinar a época exacta do aparecimento desta lenda na tradição portuguesa. Não consta da biografia anónima do séc. XIV. Certamente circularia já, oralmente, nas últimas décadas do séc. XV. O mais antigo registo conhecido é um retábulo quatrocentista conservado no Museu da Catalunha(4). Em meados do séc. XVI estava já amplamente difundida. Desta época datam o quadro anónimo, conhecido por Rainha Santa Isabel, do Museu Machado de Castro de Coimbra, e a belíssima iluminura da Genealogia dos Reis de Portugal de Simão Bening sobre desenho de António de Holanda. Um pouco posterior é o óleo seiscentista que se conserva no átrio deste colégio, de autor desconhecido, bem como o retábulo do Mosteiro de Lorvão, igualmente de autor anónimo.

O primeiro registo escrito da lenda das rosas encontra-se na Crónica dos Frades Menores, de Frei Marcos de Lisboa, de 1562:

"levava uma vez a Rainha santa moedas no regaço para dar aos pobres, /

Encontrando-a el-Rei lhe perguntou o que levava, / ela disse, levo aqui rosas.

E rosas viu el-Rei não sendo tempo delas".

Numerosas são as variantes que a tradição popular guardou: moedas de ouro que se transformam em rosas ou rosas que se transformam em ouro; ou ainda o pão que se muda em flores. No seu conjunto, as diversas variantes sublinham, através de narrativas configuradas pelo imaginário tradicional, as mesmas virtudes cristãs que o culto religioso celebra.

No entanto a tradição lendária isabelina abrange, para além da lenda das rosas, um conjunto mais vasto de narrativas lendárias, algumas de natureza popular, outras de origem cronística, na maior parte quase esquecidas nos nossos dias ou apenas recordadas a nível regional.

Três dessas lendas aparecem incluídas na primeira biografia: a "lenda do ermitão", que vem avisar a rainha que a sua filha D. Constança, que morrera em Castela, penava no purgatório e pedia a intervenção de sua mãe; a "lenda da mulinha de Alvalade", há pouco referida, e a "lenda da aparição da virgem": momentos antes de morrer, D. Isabel pediu à nora, a rainha D. Beatriz, que desse lugar à senhora de vestes brancas, que ninguém, senão ela, via.

Algumas lendas são narradas nas mais antigas crónicas. Recordemos algumas: a "lenda das águas do Tejo que se apartam", em que a tradição de Santa Iria, que deu nome à cidade de Santarém, se cruza com a memória bíblica da passagem do Mar Vermelho: as águas do Tejo abrem-se para que D. Isabel possa ir até junto do túmulo da virgem mártir que as areias guardavam no fundo do rio; a "lenda do pagem da rainha", história de vinganças frustradas, que pode ser aproximada duma tradição popular de enganos e artimanhas: é por um engano providencial que o pagem da rainha, falsamente acusado perante o rei, se salva da vingança de D. Dinis e da cruel morte que o esperava; a "lenda da rainha lavadeira", que se insere nas tradições ligadas à origem sobrenatural ou mágica das fontes e ribeiros: as águas onde a rainha ia lavar os panos do hospital de Alenquer, passam a ter poderes curativos; a lenda do "mausoléu que dá um salto", que se aproxima das narrativas de prodígios e artes mágicas: tocado pelo bordão que Santa Isabel trouxera da peregrinação a S. Tiago de Compostela, o pesado túmulo de pedra, que as águas do Mondego ameaçavam, salta milagrosamente para um lugar mais elevado; a "lenda do tecto do refeitório de Santa Clara": indo a cair as pesadas traves usadas na construção da sala, voltam milagrosamente ao seu lugar, assim se salvando o operário que aí trabalhava.

Outras lendas são de origem anónima e é impossível saber quando surgiram. Muitas são de natureza etimológica como as lendas de "Cegodim", da "Aldeia do Amor" e do "Lumiar", variantes da mesma lenda dos archotes com que a rainha teria saído a iluminar o caminho do marido infiel. Segundo a primeira, o rei, arrependido, teria exclamado "Cego vim!". Daí o nome de Cegodim. A segunda recorda os amores de D. Dinis. A última celebra a decisão da rainha de ir "alumiar" o caminho de regresso do rei.

Como estes, outros nomes de povoações são associados à presença ou a memórias de D. Isabel: Ansião, Almoster, Sangalhos, Cartaxo, Vila Flor, Pataias e também esta cidade de Odivelas. Ansião recorda um velho ancião protegido pela rainha; Almoster teve a sua origem no mosteiro que foi começado a construir em memória do milagre de Santarém, por uma dama da rainha, tendo sido concluído por D. Isabel. Os outros topónimos teriam tido origem numa exclamação da rainha, ao ouvir o canto de gaios ou de cartaxos ou ao avistar os campos em flor. Uma pequena lenda explica a formação do topónimo Pataias: indo a rainha de viagem com as suas aias as rodas da carruagem enterraram-se nas terras arenosas (noutra versão na lama de um ribeiro). Logo a rainha ordenou às suas damas, saindo da carruagem: "à pata aias". Odivelas recorda duas lendas. Segundo a primeira, o topónimo teria origem numa exclamação magoada da rainha, ao perceber as saídas nocturnas de D. Dinis: "oh! Ides vê-las"; a segunda é relativa à construção do mosteiro que teria sido erguido por D. Dinis, em acção de graças por ter sido milagrosamente salvo quando fora atacado por um urso durante uma caçada na zona de Monte Real(5). Desta lenda ficou o registo num dos suportes do túmulo do rei.

Poderia continuar ainda a recordar outras lendas dispersas por Portugal. Até este momento consegui fazer o levantamento de quarenta e nove, que são objecto de um estudo mais desenvolvido, a sair brevemente, no próximo número da Revista Lusitana.

Outras haverá ainda por descobrir, guardadas talvez na memória de algumas pessoas mais idosas, em lugares distantes por onde a rainha andou ou onde chegaram levadas pela tradição oral ou pelo culto religioso, nalguns casos associado ao culto do Espírito Santo. Em todo o caso é possível reconhecer, desde já, esquemas típicos na distribuição geográfica da tradição isabelina em Portugal: uma distribuição concentrada, com pólos em Coimbra, Leiria, Alenquer, Lisboa e Estremoz e com dominância de lendas de carácter religioso, com excepção de Leiria onde existe o maior núcleo de lendas profanas, etimológicas ou mágicas; uma segunda distribuição ordenada por eixos, em que se reconhece um eixo menor, ligando Bragança a Coimbra e coincidindo com o percurso da entrada de Isabel de Aragão em Portugal, e outro eixo maior que se estende de Lisboa a Valença passando por Coimbra e que pode se subdividido em dois segmentos: o primeiro, que vai de Lisboa a Coimbra segue o traçado da estrada régia medieval que diversas vezes D. Isabel terá percorrido; o segundo, que une Coimbra a Valença, coincide com a via principal do caminho jacobeu português, seguido na peregrinação a Santiago de Compostela.

Por todos os lugares por onde a rainha passou ficaram memórias da sua presença. Este numeroso conjunto de lendas testemunha a profunda impressão que causava nas populações que a acolhiam. A sua fama precedia-a. Podemos imaginar o impacto que faria a chegada daquela rainha que não se limitava a construir gafarias, como outras que a precederam, mas que tratava por suas mãos os leprosos; uma rainha que não hesitava em intervir nos conflitos, tomando partido ou exercendo a sua acção pacificadora; uma rainha que não abdicava das suas perrogativas reais nem da administração directa dos seus senhorios e bens, mas que nunca descurava o cuidado com as suas obras religiosas e de caridade; uma rainha sempre atenta, saindo constantemente do seu palácio, intervindo activamente na política das casas reais peninsulares, mas também em defesa dos súbditos que a ela recorriam, pedindo justiça.

A tradição popular guarda memórias da sua bondade e piedade. Mas guarda igualmente a imagem duma rainha mal amada pelo seu senhor, trazendo de volta o marido arrependido ou convertendo em flores, já não o ouro da caridade, mas as lágrimas por ele choradas; e guarda ainda memórias prodigiosas duma rainha que dava o nome a terras e a rios e fazia brotar fontes e nascer pinheirais(6). Se Coimbra é hoje, indiscutivelmente, o centro do culto da Rainha Santa e da tradição popular religiosa, é, no entanto, na região de Leiria que se conserva um maior número de lendas profanas, na sua maioria de natureza mágica e etimológica. Desde cedo houve contaminações e transferências entre as duas tradições. A "lenda das rosas" é o melhor testemunho desse percurso paralelo e em parte comum. Coimbra e Leiria reinvindicam-na como sua. Motivo igualmente privilegiado pela literatura e pela iconografia, o "milagre das rosas" constitui, como vimos, o eixo central e comum do culto religioso e da tradição popular. Ao longo dos tempos a diversificada tradição lendária isabelina foi sendo reduzida a este único elemento nuclear. Substituindo os símbolos da peregrina, presentes nas primeiras representações, as rosas tornaram-se o emblema identificador da Rainha Santa e o milagre o motivo central de um discurso mítico que, e ao contrário do que se verifica na generalidade dos mitos históricos nacionais, teve desde a origem uma larga difusão popular, a ela se ficando a dever a sua permanência e vitalidade.

E no entanto, fora do espaço da cultura tradicional, o mito isabelino teve uma limitada projecção, que não é comparável à riquíssima produção literária sobre Inês de Castro. Do séc. XVI chegou-nos um poema, em 6 cantos, de Vasco Mouzinho de Quevedo (ou Castel-Branco), publicado na última década (1596), e alguns dos textos de circunstância, incluídos no Certame Poético promovido no séc. XVII pela Universidade de Coimbra, por ocasião das festas da canonização. Da última metade do séc. XVII destaca-se o admirável e pouco conhecido Sermão da Rainha Santa Isabel, pregado pelo Padre António Vieira em Roma.

Nos séculos seguintes a presença do tema isabelino vai circunscrever-se, quase exclusivamente, ao discurso historiográfico e biografista, com excepção do final de oitocentos e do séc. XX, onde, a par de obras de fraco valor literário, surgem textos notáveis que continuam ou reescrevem a tradição lendária da Rainha Santa. Deles devem citar-se poemas de João de Lemos, Afonso Lopes Vieira e João de Deus, ou, já no final de novecentos de Manuel Alegre. Na primeira metade do século XX foram publicados dois livros, diversos quer no género literário quer na perspectiva autoral, mas ambos igualmente inovadores no discurso mítico isabelino: o drama Dinis e Isabel (1918) de António Patrício e o romance histórico / biográfico Isabel de Aragão, Rainha Santa (1936), de Vitorino Nemésio. Nemésio recupera a História, procurando recrear ambientes e mentalidades, para sobre ela erguer a "sua" Isabel de Aragão; Patrício faz a rasura da mesma História - Isabel morrerá em Coimbra, muito jovem - e subverte o sentido do mito para criar Iza, aquela que amou Dinis "mais que Isolda amou Tristão".

A narrativa de Nemésio inicia-se no tempo da infância da rainha e termina com a sua morte em Estremoz. É todo o percurso de uma vida que o narrador nos vai apresentar. Mas se o romancista procurou reconstruir uma época mantendo-se fiel às fontes documentais existentes, pretendeu também pôr a História em arte, isto é, escrever um texto literário. Assim o objectivo estético é determinante na construção do romance e na descrição de cenários e personagens. Isabel, a protagonista, permanece envolta numa "aura" de mistério e não se afasta da imagem construída pelo discurso mítico tradicional.

Apesar do narrador não apresentar acontecimentos milagrosos, sinais dispersos, indícios e pressentimentos abrem fissuras num discurso que não pretende ser estritamente verídico. A originalidade do romance consiste precisamente nesta subtil sobreposição da realidade referencial e do mito.

Mas é sem dúvida o drama de António Patrício, Dinis e Isabel, escrito quase duas décadas antes da publicação do livro de Nemésio, que exemplifica, de forma única, a capacidade que a literatura tem de transfigurar não apenas a memória histórica, mas também a memória mítica. Contrariando a tradição religiosa isabelina, a cena do milagre não é o momento bem-aventurado de uma "epifania", ou manifestação divina, mas o instante terrível em que o homem se confronta com o seu destino de pobre criatura da terra a quem é impossível resistir à voz impiedosa de Deus. Dividida por forças opostas, Isabel, frágil figura de vitral que a luz terrível do amor divino atravessa e estilhaça, irá erguer-se, não como a doce "princesa de conto de fadas" que o autor previamente nos apresentara, mas como uma comovente heroína trágica.

Neste drama - ou "tragédia de um homem que amou uma santa", segundo as palavras do autor - assistimos à total subversão do mito, investido de uma outra sigificação que passa pela inversão do sentido dos poucos elementos míticos que conserva. Assim, "o milagre das rosas", que na tradição isabelina surge como o momento da revelação do amor e da protecção de Deus, torna-se no momento da manifestação da terrível violência do sagrado, irrompendo, bruscamente, no mundo dos homens. À santidade voluntária, à caridade livremente praticada, o autor contrapõe o trágico destino de uma santa que o não quis ser e do homem que amou essa santa.

Separados por duas décadas, António Patrício e Vitorino Nemésio deixaram-nos os mais importantes textos literários modernos de temática isabelina. A eles se deve acrescentar, pela originalidade na construção da narrativa e das personagens, tornadas arquétipos intemporais, o conto "Dinis e Isabel" de Vasco Pereira da Costa, incluído no livro Memória Breve, publicado de 1987. Nesta curta narrativa, em que Isabel de Aragão surge apenas nas páginas finais, assistimos de novo à recriação subversiva do mito. As rosas, que amorosamente Isabel guarda no regaço, são as palavras de Dinis: os poemas de amor do amigo à amiga. As palavras tornam-se corpos físicos de que Isabel se apropria e que por amor transforma em rosas que lança sobre o mundo e que, igualmente por amor, Dinis de novo transforma em poesia. O amor e a poesia são assim dois motivos centrais e inseparáveis deste pequeno conto.

Distantes mais de meio século, dois escritores - um dramaturgo simbolista e um romancista contemporâneo - escolheram o mesmo título para dois textos em que evocam Isabel de Aragão, rainha santa, e Dinis, rei trovador. Ao escolherem a "lenda das rosas" e ao torná-la a acção nuclear dos seus textos, ambos nos mostraram como a escrita literária - ou por outras palavras, a linguagem enquanto energia criadora e princípio de significação - pode reinventar, não apenas os factos que a memória recorda, mas também as lendas e os mitos que o imaginário colectivo foi guardando e transformando, ao longo dos séculos. Entre eles o mito isabelino, donde emerge sereno e luminoso ou frágil e comovente, o vulto daquela que o povo, muito antes de Roma, já apelidava, carinhosamente, de "Rainha Santa".

E agora, ao terminar, saudando todos os que aqui estiveram, não quero deixar de sugerir que no momento da saída, não deixem de olhar, com uma nova atenção, o quadro da rainha das rosas exposto no átrio principal. Independentemente do valor artístico que possa ser atribuído à sua pintura, é indiscutivelmente um documento raro, e de grande beleza, da tradição lendária da Rainha Santa Isabel e assim merece ser mais conhecido e mais divulgado.

1 - No final da palestra, o dr. Francisco Simas Alves de Azevedo, presidente da Secção de Heráldica e Genealogia da Sociedade de Geografia e da Comissão de Heráldica da Associação dos Arqueólogos Portuguesa, amavelmente nos informou que a águia representada num dos escudos é a águia das armas da mãe de D. Isabel, D. Constança da Sicília.

2 - Esta edição seiscentista serviu de base à edição de José Joaquim Nunes, publicada em 1920, "Vida e Milagres de Dona Isabel de Portugal", Lisboa, Academia das ciências, Classe de Letras, L. XIII, 192.

3 - Filha de André II da Hungria e casada com o Landegrave da Turíngia, era irmã da mãe de D. Pedro, D. Violante da Hungria.

4 - Foi identificado por Nuno de Bragança.

5 - Nalgumas versões a acção é situada em Belmonte.

6 - No entanto, para além do importante corpus de narrativas lendárias, são raros outros textos de tradição oral portuguesa de temática isabelina: três versões do "Romance de Santa Isabel" e um conjunto de quadras publicadas por Leite de Vasconcelos.