CARLOS PAREDES - O MESTRE DA GUITARRA PORTUGUESA


M.Margarida Pereira-Müller

A.A. N. º 244/67

Carlos Paredes, o génio da guitarra portuguesa, cedo se familiarizou com o instrumento que lhe daria consagração não só nacional como internacional. É que tocar guitarra portuguesa parece que estava no sangue da família.

Foi ele próprio que o disse numa entrevista à RDP: "Não sei como aprendi a tocar, mas posso facilmente compreender que nós tivemos contactos em cadeia, uns com os outros, desde o meu bisavô ao meu pai". Na realidade, o pai, Artur Paredes, com quem Carlos Paredes começou a aprender a tocar aos quatro ano, também se notabilizou como um dos grandes executantes de guitarra portuguesa no fado de Coimbra. A sua arte era tal que José Régio, de quem era amigo, lhe dedicou uns versos: "Ai, choro com o que Paredes/ Curvando os dedos em garra/ Despedaçava a guitarra/ Punha os bordões a estalar".

Mas apesar de ter sido o pai quem o iniciou no instrumento, era à mãe, Maria Alice Candeias Paredes, professora de filosofia, que se sentia mais ligado. O pai era um homem austero, rígido de mais para a grande sensibilidade do filho que dedicou à mãe o seu célebre "Canto de Embalar".

Aos oito anos, deixou a sua Coimbra natal, que o tinha visto nascer a 16 de Fevereiro de 1925, e veio para Lisboa. Continuou a escola primária, iniciada na cidade do Mondego, na Escola João de Deus. Seguiu os estudos no Liceu Passos Manuel; acabado o liceu, inscreveu-se no Instituto Superior Técnico. No entanto, a sua paixão estava na guitarra portuguesa, cuja técnica interpretativa foi aprofundando e cuja fulgurante carreira o levou aos quatro cantos do mundo.

Um grande músico simples

Apesar de ser um grande génio, define-se como um músico amador e tem mantido sempre uma grande modéstia. Aliás esta parece ser a característica dos tocadores de guitarra portuguesa. Como vem na introdução do seu disco "Espelho de sons": "A música para guitarra portuguesa, a mais caracterizada, ficou a dever-se, segundo o maior ou menor talento de cada um, à contribuição dos guitarristas de tempos livres, provenientes de diversas épocas, regiões e extractos sociais. Entre eles, vamos encontrar, desde a actualidade até um passado distante, médicos, juízes, operários, escritores, pescadores, pintores, gente de todas as profissões para quem a guitarra é muito mais do que simples divertimento. É sobretudo uma forma de dar saída ao gosto de comunicar e expressar os sentimentos, satisfazer a musicalidade nata e o desejo de conviver".

Esta sua simplicidade mostra-se, entre muitos outros aspectos, no facto de ter sido até à década de 90 funcionário administrativo do Hospital de São José em Lisboa. Por várias vezes, declarou que não sentia vocação para funcionário e, se pudesse, seria somente músico - mas quem consegue sobreviver como guitarrista com a modéstia de Carlos Paredes? Durante toda a sua vida activa, deu inúmeros concertos gratuitos - e, quando convidado para acompanhar uma viagem de estado à China, pediu somente 20 contos de cachet!

Este grande músico, que se entrega totalmente ao seu instrumento, começou a ganhar fama nos anos sessenta com a estreia do filme "Verdes Anos" em 1962 do realizador Paulo Rocha, cuja banda sonora era de sua autoria; assinou temas para outras longas-metragens e compôs diversas melodias para peças de teatro. A sua música foi escolhida por Paul McCartney para servir de fundo aos espectáculos que este ex-Beatles realizou nos Estados Unidos e na Europa em 1989.

Uma guitarra que canta Portugal

Nesse mesmo ano, Carlos Paredes encantou um público que, à partida, nada percebia de guitarra portuguesa. A Ópera de Frankfurt estava cheia, e um grande silêncio se fez para ouvir este grande artista que toca duma maneira absorta onde quer que esteja; este dobrou-se sobre a sua guitarra e parece que se alheou de tudo e de todos e tocou do fundo do coração. Genialmente. Penso mesmo que não fui só eu que estremeci por dentro de comoção - todos os espectadores sentiram o mesmo.

Paredes tem realmente uma pose única no palco, parece que existe uma cumplicidade entre ele e a guitarra; há quem diga que ele se agarra à guitarra como se fosse uma tábua de salvação. Os seus dedos são fenomenais. A Rainha Isabel II de Inglaterra rendeu-se aos seus encantos e exclamou no final dum concerto: "Such incredible nails!" (Que unhas extraordinárias!).

Também José Carlos Vasconcelos, quando o viu e ouviu pela primeira vez, já lá vão mais de 20 anos, pensou, "face aquele milagre da natureza: "Este homem tem mil dedos!" Porém, mais tarde viu que não eram mil dedos, mas apenas dez dedos, geniais, mas humaníssimos".

Mas tem havido mais cabeças coroadas que ficam encantadas ao ouvi-lo. Numa viagem de estado à Bélgica em que integrou a comitiva presidencial, ficou amigo do Rei Balduíno; quando mais tarde este veio a Portugal, Carlos Paredes foi convidado para o jantar oficial. Ao vê-lo, o rei abraçou-o e disse comovido: "Olha, o meu grande amigo, que eu já não vejo há dois anos"!

Tripla homenagem

Em Dezembro de 1993, com 69 anos, foi atingido por mielopatia uma doença do foro neurológico (um processo degenerativo na coluna vertebral que vai afectando o sistema nervoso central), mais tarde agravada por uma crise de diabetes e uma infecção pulmonar, tendo já mergulhado por duas vezes em como profundo. Não sendo possível manter-se em casa, encontra-se internado num lar em Lisboa desde 1994. Não suporta ouvir música sua - só música clássica.

Em Agosto de 1994 fez-se justiça a este grande música e foi-lhe atribuído, a título vitalício, pelo Fundo de Fomento Cultural um subsídio de mérito, que lhe é pago mensalmente.

Em Dezembro do ano passado, Carlos Paredes foi homenageado triplamente em Lisboa, Porto e Coimbra, em três concertos promovidos no âmbito do Festival de Música do INATEL, que muito comoveram o guitarrista. A 8ª edição foi dedicada à obra de Paredes como artista-trabalhador e músico-compositor. Os concertos foram estruturados em duas partes: uma primeira dedicada a cordofones sob a direcção do guitarrista clássico José Vaz de carvalho, e uma segunda parte com a Orquestra Metropolitana de Lisboa, dirigida pelo Maestro Miguel Graça Moura, que interpretou peças de António Vitorino de Almeida, Pedro Osório e José Eduardo, baseadas no tema "Verdes Anos". Neste segunda parte dos concertos actuaram como artistas convidados Pedro caldeira em guitarra portuguesa e o quarteto de jazz formado por Bernardo Sasseti, António Frazão, Carlos Barreto e Mário Delgado.

Assim se prestou homenagem a uma guitarra - segundo José Carlos Vasconcelos - "chamada Paredes. Uma guitarra que chora, sonha e canta Portugal".