Dona Amélia de Orleães - Senhora de Excelsas Virtudes

 

 

Por Maria Noémia de Melo Leitão

A.A. Nº 245/1931

 

 

Na vasta galeria das rainhas de Portugal encontram-se algumas que viveram dramas  de grande intensidade. Sofreram como qualquer ser humano as vicissitudes de uma existência recheada de saudades (da família e da terra que, nalguns casos nunca mais viram), de ansiedade pelos perigos que corriam o marido e os filhos, das consequências de intrigas palacianas que lhes desvirtuavam, tantas vezes, o carácter, sofreram , enfim, a amargura comum a qualquer outra mulher.

A história julgou umas, com maior benevolência, outras, com amarga injustiça e, até, esquecimento.

Apareceu há já algum tempo, nas livrarias, um livro escrito pelo autor francês Stéphane Bern, intitulado “Moi, Amélie, dernière Reine de Portugal” e prontamente traduzido, respeitando à letra o título original.

Baseado em documentos inéditos, no diário íntimo e correspondência de D. Amélia de Orleães, o autor elaborou uma obra de muito interesse e verdade histórica, donde ressalta prestigiada a figura desta Rainha mal compreendida no seu tempo.

Seduziu-o, naturalmente, a vida atribulada desta Senhora que nasceu e morreu, no exílio, por imperativo político que conduziu ao banimento da família de Orleães, em França e, anos mais tarde ao da família Orleães Bragança, em Portugal.

D. Amélia era filha do Conde de Paris, pretendente ao trono de França após a morte do filho de Carlos X.

 

Nasceu em Londres, no dia 28 de Setembro de 1865, para onde partira o rei Luís Filipe (seu bisavô) acompanhado de sua família, após a Revolução de 1848. A rainha Vitória recebeu, com toda a benevolência, a Família Real de França que por aqui estagiou alguns anos.

Após a guerra Franco-Prussiana, e deposto Napoleão III, os Orleães regressaram a França, em 1871.

Era, pois, uma criança de seis anos, quando D. Amélia pisou a terra dos seus antepassados e onde permaneceu até à sua vinda para Portugal, como Duquesa de Bragança.

Refere-se à sua infância, adolescência e juventude com alguma amargura, porque seus pais foram de uma grande exigência na sua educação e referindo que sua mãe chegava a dar-lhe bofetadas,  mesmo nas vésperas do casamento.

Valia-lhe a afeição das tias e tios, e o convívio com primos e amigos que lhe permitiam escapadelas a Cannes e a Andaluzia  (Sevilha), dominadas por caçadas, bailes, passeios, esquecendo, então, a austeridade do Castelo de Eu, na Normandia, sua residência habitual.

Cedo atingiu uma altura pouco vulgar numa mulher (1,82m) o que não lhe agradava, e lhe valeu, entre os familiares mais próximos, o petit nom de “grande”.

O facto de ser a filha mais velha do pretendente ao trono de França e, entretanto, ter atingido os dezoito anos, modificou o estilo de vida.

Jovem, de uma grande beleza ligada a uma família de grandes tradições não seria difícil concitar as atenções de casas reais da Europa, procurando um casamento com príncipes – herdeiros ou não – dos seus estados. No entanto, havia que transpor algumas barreiras, como a religião que a afastou da casa real inglesa e de algumas casas reais alemãs. Havia ainda obstáculos de natureza política a que era forçoso atender.

 

Em Viena conheceu um príncipe russo que lhe agradou, pelo seu aspecto físico, galhardia, cultura e inteligência, mas nada resultou deste encontro.

D. Carlos de Bragança, jovem príncipe conhecido de um tio de D. Amélia, foi a Paris, intencionalmente para a conhecer.

Logo se sentiram atraídos por uma empatia mútua. Afinidades e gostos comuns (equitação, caça, arte) e a beleza física envolveram-nos num sentimento de amor.

Ela gabava-lhe o cabelo louro anelado, o bigode bem tratado, o porte, a delicadeza, o encanto pessoal e a juventude (vinte e três anos).

Ele revia-se na sua beleza delicada, no olhos escuros e expressivos, no colo de uma brancura imaculada, no seu charme.

Havia quem a lamentasse, dizendo-lhe directamente: “tu vais esconder-te num buraco” – tão mal era considerado o nosso país, nos finais do séc.XIX...

Todavia, D. Amélia ficou indiferente a este mexericos, enlevada no seu pretendente.

O pedido de casamento foi tratado pouco tempo depois, realizando-se em Fevereiro de 1886, por forma a que D. Carlos pudesse permanecer em Paris, ainda alguns dias, para acompanhar sua noiva.

Regressado a Portugal, enviou cartas muito ternas a D. Amélia que está envolvida nos preparativos de casamento e sua partida para Portugal, o que aconteceu em meados de Maio seguinte.

Um comboio especial, trazendo a noiva, família e amigos, chegou à estação de Santa Apolónia, às cinco da tarde, aguardado pelo Rei D. Luís, a Rainha D. Maria Pia, todo o corpo diplomático e nobres da corte.

Entretanto, num gesto de delicadeza, D. Carlos foi esperá-la a Santa Comba Dão, onde trocaram, na gare, o seu primeiro beijo público.

O comboio deslizava por entre manifestações de alegria que o povo tributava, aos noivos, postado ao longo da linha férrea ou nas estações de paragem técnica.

O casamento celebrou-se na igreja de S. Domingos, ricamente decorada, no dia 22 de Maio de 1886.

O cortejo nupcial era imponente, com coches dos séculos XVII e XVIII, os militares em trajo de gala, montados em soberbos cavalos, fazendo guarda de honra aos carros que traziam as pessoas mais ilustres.

A descrição pormenorizada deste cortejo, bem como as festas palacianas e populares anteriores e subsequentes ao casamento encontra-se num livro, escrito pelo Marquês de Flers, e dedicado ao Conde de Paris.

Os noivos ficaram a residir no Palácio de Belém que D. Amélia recordava como a residência que mais lhe agradou e onde foi muito feliz.

Gostava de montar no picadeiro do Palácio, que mais tarde mandou adaptar a Museu dos Coches. Preocupada com o que respeitava à arte, entendeu que deviam reunir-se os coches dispersos por várias arrecadações.

É o museu que ainda hoje lá se encontra e constitui um acervo, sem par, na Europa, salvo o de Sampetesburgo.

Inicialmente a sua vida de casada foi de uma grande felicidade. Ao fim de pouco tempo – Março de 1887 - nasceu o príncipe Luís Filipe, criança que era o encanto de sua mãe e, como diz, não queria largar em nenhum momento.

Desempenhou tarefas oficiais, ao lado de seu marido, como, por exemplo, representar o Rei e a Rainha nas festas do jubileu da rainha Vitória.

Gostava da vida simples de uma família normal, por isso gostava de se refugiar em Sintra; de permanecer em Cascais, para ir à praia e nadar; de caçar, na tapada de Mafra; de ir ao teatro D. Maria II ou a S. Carlos, à ópera, sempre acompanhada do marido.

A pintura, o desenho, a contemplação de paisagens, retratos de figuras populares, sofredoras na sua vida de trabalho, absorviam-lhe o tempo gostosamente dedicado à arte.

Em 1889, com a morte de D. Luís, torna-se Rainha de Portugal, o que determinou a alteração de algumas normas da vida restrita que apreciava.

Todavia pôde entregar-se vivamente à obra de bem-fazer que passa a ser a sua preocupação dominante.

Fundou a Assistência Nacional aos Tuberculosos que funcionava num edifício ainda hoje ligado aos mesmos serviços, no Cais do Sodré, tornando a assistência pragmática, pondo em funcionamento dispensários distribuídos por vários distritos do país. Crianças e adultos atingidos pelo mal do século eram atendidos e tratados. Tudo isto a expensas suas.

Fundou também os Sanatórios de Santana e do Outão (à beira-mar), o de Sousa Martins(Guarda) e um em Braga. Também o hospital do Rego, para crianças; as Cozinhas Económicas, os Socorros a Náufragos, o Instituto do Ultramar, o Instituto Bacteriológico Câmara Pestana (para preparação do soro anti-rábico e antidiftérico).  Para sustentar esta obra recorria à generosidade de amigas deixadas em França e outras de Portugal.

Gostava de se misturar com o povo, em procissões religiosas; conversar com as varinas; vivenciar a degradação dos pobres que se arrastavam pelas ruas da cidade, o que redobrava a sua ânsia de lutar contra este mal social.

Os homens esquecem depressa os benefícios colhidos, seja qual for a época da história.

Portugal vivia, então, momentos políticos de grande agitação. Todos os intelectuais, escritores de mérito, em críticas aceradas remetiam para o regime a responsabilidade do nosso atraso económico, cultural e social.

Revoltas de tribos africanas facilmente manipuladas por franceses, ingleses e alemães  obrigaram à mobilização de militares que vão combater em Angola e Moçambique.

O Ultimato de 1890 enviado pela Inglaterra despertou, nos Portugueses, uma onda de revolta.

Os partidos políticos que mais se destacaram (Regenerador e Progressista) alternam-se no poder , mais interessados em manter o seu prestígio do que em zelar pela governação. Os governos sucediam-se uns aos outros , sem cumprirem os programas necessários ao país.

João Franco recebeu de D. Carlos poderes dilatados, o que levou a uma reacção exarcebada dos políticos que defendiam ideais republicanos e apareciam, cada vez,  em maior número.

Associações secretas e anarquistas incitavam à violência que, de resto, varria as casas reais da Europa e políticos conservadores.

D. Carlos que era inteligente, culto e bom diplomata não foi capaz de aguentar a crise grave que se instalara, começando a ser vítima, bem como toda a família real, de intrigas, censuras e alimentadas por uma imprensa que recorria à  chacota, até em desenhos intencionais.

No dia 1 de Fevereiro de 1908, deu-se o regicídio, nas condições conhecidas.

Podemos imaginar a dor e todo o dramatismo sofridos por D. Amélia. Na sua presença mataram o marido e o filho; corajosamente bateu, com um ramo de flores que uma menina lhe oferecera,  no Cais das Colunas, afastando um dos regicidas que queria matar D. Manuel..

Destroçada pelo aspecto desolador do marido e do filho tão querido  ensanguentados, teve de reunir forças para velar os corpos, na capela do Palácio das Necessidades (sua residência) e onde, anos antes, havia recebido a Rosa de Ouro oferecida por Leão XIII, pelos seus serviços prestados aos necessitados.

Na sua mente atropelavam-se todas as ideias, desde as saudades amargas   ao espanto de um acto atroz.

Havia que enfrentar a realidade. D. Manuel, agora Rei, jovem e impreparado para governar, precisava do apoio de sua mãe , dos seus conselhos e da sua experiência política.

Apesar da luta concertada para levar o barco a porto seguro, a instabilidade continuava a ser uma constante.

Os republicanos não desistiam, os monárquicos revelaram-se laxistas; a instituição monárquica tinha os dias contados.

Em 5 de Outubro de 1910, a República é implantada.

A Família Real procurou o exílio, recolhendo a bordo do iate Amélia ancorado ao largo da Ericeira.

A Rainha D. Amélia seguiu para Inglaterra, acompanhada de D. Manuel II; a rainha D. Maria Pia, acompanhada do Infante D. Afonso regressou à sua Itália natal, a Turim.

De novo o exílio!

Durante a 1ª. Grande Guerra, D. Amélia distribuiu o seu serviço em favor de feridos, defesa de crianças e adolescentes entre a Inglaterra e a França.

Em 1922, fixou-se definitivamente em França, em Chesney, perto de Versailles.

Depois de ter visto desaparecer pessoas de família que lhe eram muito queridas, D. Manuel II morreu, em 1932, inesperadamente, na sua casa de Richmond. Mais uma rude provação para um coração de mãe.

Assistiu em França ao desenrolar da 2ª Guerra Mundial, sofrendo a ansiedade dos franceses que viram a França ocupada pelas tropas alemãs, apenas em três semanas.

Manteve-se firme na sua casa, prestando auxílio aos que precisavam de ajuda. A bandeira portuguesa içada no alto do telhado, mostrava aos invasores que se tratava de uma propriedade de Portugal, pois que D. Amélia continuou a sentir-se portuguesa, a nacionalidade que abraçou, e nunca renegou, ao casar-se com D. Carlos.

Veio a Portugal em 1945, para visitar os túmulos de seu marido e dos filhos e tratar, com o governo, de assuntos que se prendiam com a herança de D. Manuel.

Os jornais da época falam do entusiasmo do povo em a rever ou conhecer e das homenagens oficiais que lhe foram prestadas.

Visitou o Palácio da Pena (quis ficar sozinha, por algum tempo, enquanto percorria certos espaços), Cascais, o Buçaco, Mafra e Ericeira (a praia por onde partiu para o exílio).

Visitou a Assistência Nacional aos Tuberculosos que havia fundado quarenta e seis anos antes.  Proferiu algumas palavras, evidenciando que aquela casa fora o seu grande sonho.  O Director da instituição disse, então, que era estudante de medicina quando, naquela mesma sala viu Sua Majestade proceder à inauguração da Assistência Nacional aos Tuberculosos.

Regressou a França, não sem antes ter recebido uma despedida muito afectuosa, por parte de entidades oficiais, e de pessoas do povo que enchiam a estação de Santa Apolónia.

E, no momento em que o comboio se preparava para partir, soltou um “Viva a Portugal “...

Viveu ainda mais seis anos. Desgostosa e saudosa, queixava-se de solidão.

Rodeada de pessoas dedicadas que estavam ao seu serviço (algumas eram portuguesas) e de alguns familiares faleceu no dia 25 de Outubro de 1951.

Pouco antes falou em Português.

O seu corpo foi transladado para Portugal, realizando-se funerais nacionais. Ficou sepultada no Panteão Nacional, em S. Vicente de Fora, junto do marido e dos filhos.

Uma inscrição gravada na arca tumular, sintetiza o drama desta Senhora, nem sempre compreendida pelos homens do seu tempo e não muito referida nos dias de hoje.

 

Aqui descansa em Deus D. Amélia de Orleães.

Rainha no trono, na caridade e na dor.

 

Em rodapé:

Uma delegação vinda de França colocou uma placa em mármore que diz o seguinte:

 

Souvenir du Chesnay (France) dernier asyle de la Reine Amélie – Hommage de la Societé d´Histoire du Chesnay.  1996