1755: O grande terramoto

1755: O grande terramoto


Por Luísa Pais

Professora do I.O.

Assinala-se neste ano de 2005 os 250 anos do terramoto de Lisboa de 1755. Esta evocação reveste-se de varias formas: publicação de obras sobre o tema, colóquios, exposições, e o Instituto de Odivelas, cujo edifício foi em parte danificado, associa-se assim a esta evocação.

O terramoto teve uma dimensão catastrófica, causando danos avultados no sudoeste da Península Ibérica e no noroeste de África, e foi ainda sentido na maior parte da Europa Ocidental.

As vagas do maremoto a ele associado causaram grande destruição nas costas portuguesas, espanholas e marroquinas e foram registadas no outro lado do Oceano Atlântico, nomeadamente no Brasil, América do Norte e Caraíbas.

As réplicas foram numerosas e algumas bem fortes: nos seis meses seguintes registaram-se mais de 250 sismos.

Esta dimensão de catástrofe produziu um grande impacto cultural na Europa: assiste-se a uma profusa difusão de gravuras, relatos, cartas, poemas, obras literárias e científicas.

Teve também repercussões na história intelectual europeia e propiciou discussões de temas filosóficos - nas quais se envolveram, por exemplo, Voltaire e Rousseau. Assumiu ainda um papel fundamental como estimulo para o desenvolvimento da sismologia moderna.

Embora o sismo tenha, como foi referido, atingido outras zonas da Europa e Africa, foi em Lisboa que a destruição revestiu aspectos mais espectaculares e foi também a cidade que concentrou mais descrições; por isso esta abordagem cinge-se a Lisboa e como não podia deixar de ser ao mosteiro de S. Dinis de Odivelas.

Ainda hoje o terramoto, que ocorreu cerca das 9h3o do dia 1 de Novembro de 1755 - dia de Todos os Santos - e alvo de intenso debate científico no que diz respeito nomeadamente a sua origem.

Ate há pouco tempo, a versão mais aceite era a que a colocava no banco de Gorringe, montanha submarina situada a Sudoeste do Cabo de S. Vicente.

Recentemente surgiram outras propostas que apontam para uma estrutura geológica submersa a uma distância intermédia entre o banco de Gorringe e o cabo de S. Vicente - e uma falha de 7o km de extensão, descoberta em 1999,e que foi denominada falha do Marquês de Pombal.

Uma tese mais recente, baseada na forte amplitude do sismo e do maremoto que se lhe seguiu, bem como nas descrições da época que fazem referência a um intervalo entre dois ou três abalos no espaço de 6 a 7 minutos, propõe a hipótese de terem ocorrido dois terramotos distintos, com epicentros a km de distância um do outro e com poucos minutos de intervalo, entre os quais existiu uma relação de causa-efeito.

O 1º sismo com origem no mar e possível magnitude de 8.5 na escala de Ritcher terá induzido uma ruptura na falha do Vale Inferior do rio Tejo, provocando o segundo sismo de magnitude 6.5 a 7 na mesma escala, o que justificaria a grande destruição de edifícios em Lisboa e deformações do terreno verificadas neste local.

Ouviu-se simultaneamente um estrondo subterrâneo e em várias zonas abriram-se fendas na terra: extensas, mas de pouca largura, donde emanavam vapores sulfúricos. Há também relatos de que nos poços a agua ficou turva e com mau cheiro.

A cidade cobriu-se com uma nuvem de poeira, libertada pela queda dos edifícios.

Poucos minutos depois deu-se o maremoto, uma onda gigantesca, fenómeno raro no Oceano Atlântico e actualmente mais vulgarizada sob a designação japonesa de tsunami.

As réplicas continuaram não só durante toda a noite, mas por vários meses e foram sentidas noutros países europeus e nas ilhas atlânticas. Estas réplicas, algumas muito fortes foram responsáveis por mais quedas de edifícios que tinham resistido até então.

Também as marés demoraram cerca de 12 dias a retomar o seu curso regular.

Embora tenha ficado associado a Lisboa o terramoto causou igual ou maior devastação no barlavento algarvio. Loulé Albufeira, Lagos, Portimão, Silves, Vila do Bispo ficaram bastante destruídas; a Estremadura e o Ribatejo bem como a zona de Cascais e Setúbal foram também atingidas violentamente.

Surgiram relatos de como o sismo foi sentido na Europa e de supostos efeitos das ondas sísmicas sobre nascentes e fontes em locais distantes; o mais intrigante ocorreu nas nascentes térmicas da actual República Checa, cujos caudais aumentaram e transportaram grande quantidade de lama. Os sismólogos actuais dividem-se quanto a sua explicação: coincidência ou relação causal?

Cerca de 30 minutos após o terramoto e coincidindo com mais uma replica, uma vaga vinda do oceano e que segundo os relatos da época atingiu cerca de 6 a 9 metros, quase submergiu o farol do Bugio e fez desaparecer o porto, bem como os sobreviventes que ai se encontravam, inundando uma parte substancial do centro da cidade, onde penetrou cerca de 250 metros.

Na zona do Terreiro do Paço a maré subiu e desceu três vezes e quando se deu o primeiro abaixamento das águas, revelou-se o fundo do rio com destroços de navios e cargas perdidas. Na zona portuária, o Cais da Pedra que tinha sido recentemente construído com grandes blocos de mármore ligados com varas de ferro, foi completamente engolido sem deixar vestígio.

Também alguns dos barcos que se encontravam no Tejo rodopiaram e afundaram-se.

Os danos provocados pelo terramoto e pelo maremoto foram ainda agravados pelo fogo que se propagou rapidamente a partir de 6 ou 7 focos em simultâneo. A origem e dimensão que veio a tomar deveram-se às muitas lareiras que estavam acesas e às velas das igrejas. Como a principal preocupação das pessoas foi fugir dos locais sinistrados e dos consequentes desmoronamentos, não houve quem se dedicasse a apagar os vários focos.

O fogo foi responsável pela morte de muitos feridos que estavam entre os escombros e atingiu uma parte considerável da cidade. Muitas casas que não tinham ruído ou que tinham poucos estragos foram então destruídas.

As chamas, que permaneceram activas durante seis dias, formaram um semicírculo na parte central e mais populosa da cidade, começando e acabando junto ao rio: da Ribeira das Naus ao Terreiro do Paço, subiram a Santa Catarina, ao Bairro Alto, chegaram a S. Roque, passaram ao Carmo e desceram ao Rossio, atingiram Sta Justa, a Mouraria, o Castelo e Alfama. É esta a área reproduzida que incluía além de muitas igrejas e palácios, a maior parte das casas, lojas e armazéns de mercadores tanto portugueses como estrangeiros.

O centro dinâmico da cidade, tanto a nível institucional como económico localizava-se junto ao palácio real, frente ao rio e perto da Casa da Índia, dos estaleiros e de uma larga praça virada para o Tejo o Terreiro do Paço.

O comércio mais importante concentrava-se numa rua paralela ao rio e numa série de ruas desordenadas no centro da cidade, que partindo da zona ribeirinha chegavam as colinas.

No século XVII, Lisboa tinha-se expandido para ocidente ao longo da margem do Tejo onde foram construídos muitos edifícios religiosos e palácios da aristocracia.

É toda esta zona, densamente povoada, que vai sofrer a destruição provocada simultaneamente pelo terramoto, pelo maremoto e pelo fogo. Calcula-se que terão ficado destruídas ou inabitáveis cerca de 8o% das habitações, 1/10 das quais terá ruído com o terramoto.

As igrejas, conventos e palácios, sendo edifícios mais altos foram os que mais sofreram: e o exemplo da Sé, S. Vicente, convento da Graça, colégio de Sto Antão dos Jesuítas, Convento do Carmo (cujas ruínas ainda hoje se podem ver). Cálculos da época, provavelmente inflacionados apontam para 10.000 edifícios destruídos.

Para se ter uma ideia aproximada da destruição sabe-se que das 40 freguesias que a cidade tinha, 16 ficaram arruinadas e queimadas, e mais 19 arruinadas. Dos 39 conventos masculinos ficaram 8 queimados e 22 arruinados; dos 26 conventos femininos 24 ficaram arruinados; dos sete recolhimentos ficaram três queimados e três arruinados.

Arderam 35 igrejas incluindo a Igreja Patriarcal, 55 palácios ficaram destruídos (como por exemplo o Palácio Real), a Ópera (que havia sido inaugurada seis meses antes), vários tribunais, como o da Inquisição, a casa da Relação, seis cadeias e parte da Sé.

Entre os edifícios atingidos pelo fogo junta-se ainda o que restava do Palácio Real, a casa da Índia com as suas especiarias, a Alfândega, o Hospital Real de Todos os Santos e parte do Castelo de S. Jorge. Ardeu também a Biblioteca Real (com cerca de 70.000 volumes) organizada no reinado anterior de D. João V, bem como outras bibliotecas de palácios e conventos, o Arquivo Real, obras de arte e alfaias religiosas. Salvou-se o Arquivo da Torre do Tombo localizado no castelo de S. Jorge e depois transferido para o mosteiro de S. Bento.

Torna-se difícil contabilizar a população total de Lisboa, e consequentemente o número de vítimas, numa época em que ainda não havia recenseamentos e em que o levantamento do número de habitantes se fazia com outros objectivos - nomeadamente fiscais e militares . Por isso, a disparidade de cálculos é muito grande e varia entre 10.000 e 24.000 mortos, para uma população que poderia atingir os 200.000 habitantes.

O maior número de vitimas ter-se-á verificado nas igrejas, onde devido à celebração do dia de Todos os Santos se concentravam muitas pessoas.

A família Real encontrava-se no palácio que possuía na zona de Belém, área que foi pouco afectada.

Na sequência do sismo uma parte significativa dos habitantes fugiu de Lisboa. Com medo das réplicas, a procura de familiares que lhes pudessem dar abrigo, calcula-se que a população da cidade tenha diminuído um terço. Uma parte destas pessoas encontrou guarida em mosteiros não danificados que abriram a clausura das suas cercas ou ai improvisaram hospitais.

Outra parte optou por construir barracas feitas em pano e madeira, em quintas e conventos na periferia de Lisboa.

Também a família real optou por viver durante meses em grandes barracas, até se mudar para a zona da Ajuda onde foi construído um edifício em madeira, conhecido, mesmo internacionalmente, como a "Real Barraca da Ajuda", e que ardeu em 1794, dando posteriormente origem a construção de um palácio sensivelmente na mesma zona.

Após a catástrofe foi necessário implementar medidas rápidas no sentido de tornar a vida na cidade o mais normal e funcional possível.

O Estado, através da acção do marquês de Pombal chamou a si a responsabilidade de organizar medidas de emergência cujas prioridades foram: evitar as doenças, alimentar a população e impor a ordem pública.

Nesse sentido, foram tomadas, entre muitas outras, as seguintes disposições:

- para prevenir a disseminação de doenças devido ao grande número de cadáveres existente, o patriarca de Lisboa autorizou que os mortos fossem colocados em barcos e deitados ao mar em pleno oceano Atlântico.

- Mandaram-se erguer pela cidade forcas onde eram sumariamente executados todos os que fossem apanhados a roubar ou cometer outro tipo de crimes - e os ladrões eram numerosos pois tinham fugido das cadeias aquando da sua destruição.

- Impuseram-se limites máximos para o preço dos principais alimentos no sentido de desencorajar a especulação.

As primeiras notícias foram chegando a Europa essencialmente através de cartas e publicações que descrevem pormenorizadamente o terramoto, o maremoto, o incêndio e consequentes destruições. Causam grande impacto e são rapidamente traduzidas e lidas por todo o continente. Só no ano de 1756 são publicadas 44 obras sobre o tema.

Este foi também amplamente tratado em sermões e textos de índole religiosa, tanto protestante como católica. Na realidade, os acontecimentos de Lisboa abalaram fortemente as convicções religiosas e filosóficas do pensamento europeu: em primeiro lugar por ter acontecido num dia santo, exactamente quando grande parte da população se encontrava na missa, destruindo muitas igrejas; em segundo lugar ao ser encarado como um castigo divino - dividindo-se aqui as opiniões acerca do que estaria Deus a castigar: desde a Inquisição e a própria igreja católica - na perspectiva protestante , ate a expiação dos pecados - na perspectiva católica.

Para se avaliar o impacto psicológico que causou na Europa pode-se referir que em Viena a imperatriz austríaca cancelou as festas de Carnaval do ano seguinte e a Dinamarca proclamou um dia de jejum e acção de graças por ter sido preservada.

Muito importante foi também o debate filosófico que suscitou na Europa já que contribuiu para instaurar um sistema de descrença em relação ao optimismo do pensamento racionalista do Humanismo, em relação à crença num Deus bondoso - que permite catástrofes naturais que vitimam tantos inocentes, e questionou simultaneamente as bases teológicas do pensamento cientifico.

O primeiro a abordar o tema foi Voltaire que em 1756 publica o "Poema sobre o desastre de Lisboa" no qual contesta quer as interpretações teológicas quer a crença optimista do seu tempo no progresso:

...Filósofos iludidos que gritam, "Tudo esta bem",

Apressados, contemplam estas ruínas tremendas

Que crime, que erro cometeram estas crianças,

esmagadas e ensanguentadas ao colo de suas mães?

será que Lisboa mergulhou mais fundo no vício do que Londres, Paris ou a solarenga Madrid?

Nestas os homens dançam; em Lisboa abre-se o abismo,

Espectadores tranquilos da desgraça de vossos irmãos,

impávidos perante esta dança da morte repelente,

Rousseau, chocado com o que Voltaire havia escrito, reafirma as causas naturais das catástrofes e responde-lhe com a "Carta sobre a Providência" na qual pergunta logo no início:

"Teríeis preferido que este terramoto tivesse ocorrido algures no deserto em vez de em Lisboa (...) significara isto que a natureza se terá de submeter as nossas leis?".

Para Rousseau, que se opõe à visão fatalista de Voltaire, era o Homem, através dos seus erros, o responsável pela corrupção da harmonia da Criação, como se prova quando, ainda na mesma Carta afirma: "Há que convir... que a natureza não reuniu em Lisboa 20.000 casas de seis ou sete andares, e que se os habitantes dessa grande cidade se tivessem dispersado mais uniformemente e construído de modo mais ligeiro, os estragos teriam sido muito menores, talvez nulos".

O debate prolonga-se com a publicação por Voltaire de "Candide" - colocando o ingénuo herói em Lisboa, exactamente na altura do terramoto e fazendo-o confrontar-se com o seu mestre Pangloss, defensor da teoria optimista de Leibniz - a de que se vivia no melhor dos mundos possível. Candide, ao presenciar o terramoto, assiste mais do que a uma catástrofe, a uma prova da imperfeição do Mundo, e Voltaire serve-se dele para por em causa o que considerava serem as incongruências do pensamento optimista.

Também Kant se vai interessar pelo terramoto de 1755. O fenómeno leva-o a escrever - logo no ano seguinte, três artigos de carácter cientifico que constituem uma das primeiras tentativas sistemáticas para explicar os sismos através de causas naturais.

Defende que os terramotos funcionam com base em leis gerais e tenta mostrar que podem conter também um aspecto positivo, dando como exemplo as fontes de água termal e curativas que emergem com o abalo sísmico.

Anos mais tarde, Kant tem ainda presente o terramoto ao elaborar o seu conceito filosófico de "sublime" - para ele, o Homem ao tentar compreender a enormidade das grandes catástrofes, confronta-se com a Natureza numa escala de dimensão e força transumanas que embora tome mais evidente a sua fragilidade física, fortifica a consciência da superioridade do seu espírito face a Natureza, mesmo quando esta o ameaça.

Foram inúmeras as gravuras representando os acontecimentos de Lisboa que circularam na Europa durante a 28 metade do século XVIII e também ao longo do século XIX, muitas das quais realizadas por estrangeiros.

A catástrofe de Lisboa impressionou de tal forma os europeus que estas imagens fazem frequentemente sobressair o aspecto dramático dos acontecimentos, ampliando deliberadamente estragos para melhor transmitir a dimensão do drama, apelando à emoção dos seus destinatários.

Muitas são mesmo irrealistas e outras ao representarem a cidade fazem-no de uma forma bastante incorrecta: os edifícios desenhados não correspondem a nenhum edifício concreto em Lisboa e especialmente nas gravuras realizadas por artistas do centro e Norte da Europa a Lisboa que se vê representada e uma cidade nórdica com os seus telhados bem inclinados.

O terramoto marca também o nascimento da sismologia através do considerável número de autores que investigaram e publicaram obras, procurando não só descrevê-lo o mais rigorosamente possível, mas também indagar e explicar as suas causas.

Concretamente em Portugal afirma-se que a sismologia nasce com a publicação de um inquérito sismológico, elaborado em moldes científicos e que ficou conhecido como o "Inquérito do Marquês de Pombal". Este inquérito, de autor desconhecido, foi enviado pelo Marquês a todas as paróquias do país com o objectivo de conhecer as várias manifestações e efeitos do terramoto e do maremoto.

É um conjunto de perguntas das quais se salientam pela sua pertinência actual: Quanto tempo durou o terramoto; quantas réplicas se sentiram; que tipo de danos causou; o que aconteceu no mar, rios e fontes; onde se abriram fendas na terra; quais as características do maremoto: se a maré vazou ou encheu primeiro, a que altura cresceu a onda, quantas vezes se deu o fluxo, quanta tempo levava a água a baixar e a encher.

É a estas perguntas que um sismólogo moderno tem de responder para caracterizar um fenómeno desta natureza e é devido as respostas que os párocos enviaram que hoje podemos ter uma ideia muito aproximada do que se passou.

Também em Odivelas e nomeadamente no Mosteiro de S. Dinis o terramoto foi sentido e causou estragos.

Na 1ª metade do século XVIII era um vasto e rico convento que incluía para alem da igreja, dois claustros, acomodações para as cerca de 300 freiras, para as recolhidas e para as criadas. Existia ainda toda uma série de dependências onde as freiras se dedicavam à música, doçaria e bordados.

A norte e a ocidente estendia-se uma extensa área rural - a cerca, com a sua horta, pomar e todas as dependências necessárias ao trabalho agrícola.

A nível arquitectónico, a igreja, de traça gótica, apresentava, como hoje, uma cabeceira com a capela-mor e duas colaterais que correspondiam a estrutura das naves - uma principal e duas laterais. A nave principal era mais extensa do que a igreja actual porque incluía a zona do coro.

Adossado à igreja, o Claustro Novo incluía a sala do capítulo, junto a qual se encontrava a escada que dava acesso ao piso superior. Neste situavam-se os dormitórios das freiras e também os aposentos da célebre madre Paula.

No corpo da igreja abateram as paredes laterais e uma grande parte da abóbada de pedra das três naves. Permaneceram de pé, como hoje se observa, a capela-mor e as duas capelas laterais. Resistiu também o portal lateral.

No chamado Claustro Novo (o mais antigo) ruíram duas alas - a nascente e a norte. Resistiu a casa do capítulo, embora a sua abóbada tenha caído.

Não ruíram completamente mas ficaram muito danificados e impossíveis de habitar os dormitórios e as demais serventias do convento, e houve zonas que foram caindo nos dias posteriores ao terramoto, especialmente o resto das abóbadas.

O túmulo de D. Dinis ficou também bastante danificado: as pedras da abóbada que sobre ele tombaram destruíram praticamente a imagem de S. Luís (na cabeceira do tumulo) e mutilaram a cara e as mãos da estátua jacente do rei.

O desabamento da abóbada da igreja não provocou a morte de nenhuma freira - nem de conversas nem de recolhidas.

No entanto, informações da Memória Paroquial dão conta da morte de 32 pessoas desta freguesia, predominantemente mulheres, e de um religioso da Ordem de S. Bernardo que aqui se encontravam para assistir aos serviços religiosos, além de outras pessoas, não contabilizadas, de fora da freguesia.

O Livro de Óbitos de Odivelas faz referência a estas mortes, nos dados relativos ao dia 1 de Novembro. Trinta terão ocorrido imediatamente e as outras nos dias subsequentes. Do número total de mortos, só dez se conseguiram retirar do local para serem enterrados, tendo os outros ficado soterrados nas ruínas.

A reconstrução iniciou-se pela zona da Igreja e foi realizada num prazo relativamente curto, já que passados dois anos esta área estava concluída. A igreja fica então com a imagem que hoje se nos apresenta - uma nave única que por necessidades técnicas e funcionais se adapta a cabeceira gótica.

Permanece ainda visível o arranque dos arcos que, partindo da cabeceira, faziam a articulação com as naves.

Também as alas nascente e norte do Claustro Novo foram reconstruídas com características arquitectónicas diferentes das originais, apresentando uma construção mais ao gosto neoclássico que contrasta com as alas ocidental e sul de trava gótica.

Impossibilitadas de viver no mosteiro arruinado e com zonas em risco de desabar, parte das freiras procura refúgio na cerca do convento e outra parte resolve sair da clausura, (como fizeram freiras de muitos outros conventos) vivendo em casas fora dos limites dos mosteiros. Esta última atitude é alvo de um decreto de 9 de Janeiro de 1756, obrigando todas as freiras novamente a clausura e sem poderem voltar livremente para casa depois dos serviços religiosos como tinham feito até então. Durante este tempo, os actos de culto eram celebrados na denominada casa do lagar do azeite.

Na cerca, provavelmente na zona a ocidente do coro, construíram-se barracas de madeira onde viveram as freiras até que as obras de reconstrução do mosteiro terminassem e pudessem regressar em segurança, o que aconteceu em 1760.

Também para Lisboa, fica a imagem de uma cidade reconstruída em termos modernos, já que a destruição que o terramoto ocasionou, obrigou a um esforço de reconstrução sem precedentes, abrindo novos caminhos a nível da arquitectura, da engenharia civil, do urbanismo, patentes na designada "baixa pombalina" de Lisboa.