Luísa Costa Gomes –

Felicidade é rir com os meus filhos

 

Luísa Costa Gomes, A.A. Nº 23/1964, é uma escritora de renome quer em Portugal quer no estrangeiro.  Nasceu em Lisboa, em 1954; aos dez anos entrou, “de livre vontade” no I.O., tendo saído no sexto ano (actual 10º ano).  Desse tempo lembra Isabel Caixeiro, que estava sentada na carteira à frente de Luísa, que ela passava as aulas a “picá-la” com o lápis para lhe passar papelinhos onde ia escrevendo as suas histórias e peças de teatro.

Concluiu o ensino secundário no Liceu de Oeiras, onde se sentiu livre e feliz. Licenciou-se em Filosofia, e foi professora no ensino secundário, actividade que abandonou há alguns anos para se dedicar à escrita e à realização de Oficinas da Escrita  em diversas escolas do país. É também cronista e tradutora, bem como responsável pela edição da revista “Ficções”, dedicada à divulgação do conto, quer de autores estrangeiros, como de portugueses.

Em 1982, publica a sua primeira obra, 13 Contos de Sobressalto, sobre os quais Eduardo Prado Coelho escreveu no Expresso , em 27/2/82: “Difícil explicar o sentimento de estranheza que se apodera do leitor ao avançar neste livro (...) o leitor apercebe-se, progressivamente rendido, que há nesta sequência de textos (de ambição e valor desiguais) uma experiência de linguagem inovadora e desconcertante (...) Luísa Costa Gomes desvia linguagem como quem desvia menores ou aviões. Entre a perversidade e o jogo, a aventura e o pudor.”
Até à data já deu à estampa mais de dez obras de ficção e teatro – mantendo ainda actuais as palavras que Jorge Listopad escreveu no Jornal de Letras a 24/ 5/ 82: “O que mais surpreende nas páginas da jovem autora (...) é o modo de escrever. Tranquilo, com neutralidade activa, mas neutralidade, o que não exclui um saber linguístico raro e engenhosamente apaixonado. Mas além deste saber da escrita, opcional e tecnicamente perfeita, há outro saber,o de contar, saber e sabor (...).Voltou a realçar em 1998, quando escreveu “O Corvo branco”, o libreto para uma obra de Bob Wilson, com música de Phillip Glass, para a Expo 98, em Lisboa. 

Tens uma vida tão diversificada como a tua obra. Como consegues conciliar o dia a dia de professora de Filosofia - com as suas tarefas repetitivas, a preparação das aulas, a correcção dos pontos, a interacção com os alunos – com uma carreira literária?

Não dou aulas de Filosofia há muitos anos. Faço parte de um grupo de Professores /Escritores que realiza nas escolas secundárias Oficinas de Escrita.

 

A tua primeira obra foi publicada há 20 anos, tendo sido muito louvada pela crítica. Já tinhas escrito muito anteriormente “para a gaveta”? Já tinhas publicado antes em revistas ou jornais?

Escrevo para mim desde os dez aos de idade. Tive a sorte de, quando decidi publicar, encontrar quem me quisesse publicar.

 

Como sentiste a tua tendência para a escrita? Foste incentivada por alguém?

Ninguém me incentivou. Comecei a escrever porque me sentia sozinha. Nunca participei em curso nenhum.

 

De que ideias partes quando começas a escrever um livro? De um clique de momento? De uma ideia longamente amadurecida?

Depende do livro, mas normalmente são ideias que andam comigo meses ou anos e depois demoram outros tantos anos a serem escritas.

 

Como chegas aos nomes das tuas personagens? São simbólicos? Pretendem estar carregados de significado?

É uma questão demasiado complicada. Digamos que, em princípio, o nome da personagem tem de ser indicativo, mas não excessivamente indicativo da função que ela desempenha no texto.

 

Que influências sentes na tua obra? Que escritores te influenciaram? Que estilos?

Os escritores de que mais gostei : Kafka e Beckett. E o de que mais gosto : Nabokov.

 

Para muitos escritores, um grande problema reside, muitas vezes, no título. Quando nasce o título das tuas obras? Começas um livro pelo título? Ou é a último ponto a tratar?

Depende de livro para livro. Por vezes o título impõe-se e força o livro a adaptar-se, o que é mau. No meu último romance, Educação para a Tristeza, o título é de tal maneira programático, que o livro revoltou-se um bocado e acabou paradoxal. Provavelmente, acabaria paradoxal de qualquer maneira...

 

Demoras muito tempo a escrever um livro ou sai-te rapidamente da pena?

O meu último romance andou comigo quatro anos. O anterior, três anos. A média é três anos por romance, com interrupções, naturalmente, para peças de teatro e contos.

 

Sentes necessidade de te isolares quando estás embrenhada na escrita dum livro ou escreves paralelamente às outras actividades?

Sinto sempre necessidade de me isolar. E simultaneamente de procurar companhia e agitação.

 

Em “Olhos verdes”, o budismo está muito presente. O que é para ti o budismo? Como vês as religiões em geral (sim, eu sei, o budismo não é uma religião, é uma filosofia de vida)? Qual o teu relacionamento com a religião?

Sou mística. Significa que detesto as igrejas, os cultos, os partidos e todas as formas organizadas de expressão do afecto religioso. De resto, acho que só acredito na contemplação da natureza.

 

Numa entrevista que deste ao “Mil Folhas” falas da banalização das notícias transmitidas pelos meios de comunicação que nos anestesiam e “já nada daquilo que se vê eventualmente poderá fazer-nos sofrer ou fazer-nos felizes”. Duas perguntas:

a) O que se pode fazer para ir contra a corrente do banalizar de situações humanamente dramáticas? Como se pode fazer que os meios de comunicação, especialmente a TV, veja o caminho errado para onde está a levar milhões de pessoas?

Não sei o que se pode fazer. Tenho pena de não saber, mas realmente não sei.

b) A segunda pergunta é mais geral: o que é para ti felicidade? O que te faz feliz ou que te faz sofrer?

 

Para mim, a felicidade é ter os meus filhos saudáveis, contentes e a crescer, e irmos todos jantar e dizermos uma data de disparates e rirmo-nos que nem uns perdidos. O que me faz sofrer é o que faz sofrer toda a gente : não ser amada e não ser compreendida.

 

Voltando atrás mais de três décadas, a tua saída do colégio foi muito atribulada. Eu, caloira nessa altura, não percebi nada de nada. Nessa altura, esses assuntos não eram discutidos abertamente, tudo se falava em sussurro. Como vês a tua passagem pelo colégio e a tua saída repentina?

 

Embora tenha escolhido ir para o Colégio aos dez anos, ainda hoje lembro esses anos que lá passei com alguma tristeza. Suporto mal as regras muito estritas e os ambientes muito fechados. Não me consigo lembrar de momentos bons – estava sozinha e estava fechada.

 

Como te adaptaste na vida “cá fora”?

Sair no sexto ano para Liceu de Oeiras foi uma imensa libertação. Lembro-me de ir a cantar para lá e de vir, livre que nem um passarinho, de comboio e depois a pé para casa. As minhas notas subiram em flecha, adorava os professores que muito me marcaram – a Teresa Guimarães, a Filosofia e a Virgínia Lima, a Português e fiz amigos que muito me acompanharam.

 

Em que é que esses anos de internato moldaram a tua vida, positiva ou negativamente?

Não sei se são coisas positivas ou negativas, mas ensinaram-me disciplina e ascetismo, esforço e trabalho, autocontrole e força para enfrentar e suportar a adversidade; algum poder de dissimulação das emoções; e talvez também seja positivo aprender a aguentar o sofrimento e o poder discricionário das pequenas autoridades...

 

 

 

 

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A obra de Luísa Costa Gomes

Ficção:

13 Contos de Sobressalto, contos, Editora Bertrand, Lisboa, 1982

Arnheim & Désirée, narrativa, Difel, 1983

O Gémeo Diferente, contos, Difel, 1984

O Pequeno Mundo, romance, Quetzal, 1988

Vida de Ramón, romance, Dom Quixote, 1994

Olhos Verdes, romance, Dom Quixote, 1994

O Defunto Elegante, com Abel Barros Baptista, romance, Relógio d’Água, 1996

Contos Outra Vez, contos, Cotovia, 1997

 

Teatro:   

Nunca Nada de Ninguém, Cotovia, 1991

Ubardo, seguido de A minha Austrália, Dom Quixote, 1993

Clamor, Cotovia, 1994

Duas Comédias, Relógio d’Água, 1996

O Céu de Sacadura, Cotovia, 1998